Síndrome da esposa que desiste do relacionamento
Atualizado: 3 de out.

Este texto vem trazer uma reflexão sobre um fenômeno descrito como a síndrome que ocorre quando a esposa se distancia emocionalmente e decide encerrar o relacionamento após anos de tentativas de salvar o casamento.
Geralmente, ela desiste após uma longa e silenciosa fase de necessidades não atendidas, precedida por uma etapa de pedidos de mudanças que foram ignorados ou minimizados pelo marido.
A contribuição que pretendo oferecer com este artigo é analisar a “Walkaway Wife Syndrome” (Síndrome da esposa que desiste do relacionamento), cujo termo foi cunhado pela terapeuta de casais norte-americana Michele Weiner-Davis.
É importante esclarecer que essa expressão é utilizada para descrever um padrão de funcionamento em alguns relacionamentos, e não corresponde a um diagnóstico clínico formal.
O que é a Síndrome da esposa que desiste do relacionamento
A Síndrome da esposa que desiste do relacionamento é uma expressão utilizada para descrever o fenômeno de divórcios iniciados pelas esposas após terem tentado de tudo para salvar seus casamentos.
A mulher geralmente pode assumir o papel de cuidadora emocional do relacionamento*, promovendo momentos a dois de qualidade e conversas profundas. Quando ela sente que o parceiro deixa o relacionamento em segundo plano, começa a apontar isso para ele e também a criticá-lo. Se, mesmo assim, a reconexão não acontece, ela desanima, se distancia e passa a cogitar deixar a relação assim que se sentir pronta.
(*Esse padrão não é exclusivo das mulheres e não significa que elas sejam naturalmente mais responsáveis pelo cuidado emocional dos relacionamentos.)
Neste processo, a esposa pode ficar mais silenciosa, gerando no parceiro a sensação de que está tudo bem, pois não há mais reclamações. Quando ela comunica a decisão de se separar, o marido entra em choque. Só então, vai atrás de mudanças de comportamento, autoconhecimento e terapia.
Ele pode vir a se tornar o marido que ela tanto desejava. Mas pode ser tarde demais. Ele realmente pode passar por uma transformação sincera e começar a priorizar a relação, mas ela já está cansada e não acredita que as mudanças serão permanentes, decidindo encerrar o relacionamento mesmo assim.
Importante salientar que parceiros de qualquer gênero e, inclusive, em relacionamentos homossexuais, podem se identificar com esse padrão de relacionamento. Mas é um fenômeno que afeta frequentemente mulheres em relacionamentos monogâmicos com homens.
3 estágios da Síndrome da esposa que desiste do relacionamento
Estágio 1: expressão das insatisfações no relacionamento
Assim que percebe que o relacionamento não está a satisfazendo, a esposa procura expor ao parceiro quais de suas necessidades não estão sendo atendidas. Pode sentir falta de conexão emocional, reconhecimento, parceria, validação de sentimentos, tempo de qualidade, divisão justa de tarefas ou outras questões.
Algumas vezes, ela pode expor atitudes do marido que estão incomodando, como procrastinação, falta de romantismo, desorganização, falta de atenção, insensibilidade e problemas de comunicação.
O parceiro, ao ouvir as queixas, pode se sentir criticado, desvalorizado, pressionado e agir de forma defensiva, negando, evitando o assunto ou culpando-a pelos problemas.
É a fase em que pode haver problemas, conflitos, discussões, cobranças, críticas e dificuldade de encontrar harmonia.
A esposa pode pedir que o marido faça terapia individual, propor terapia de casal, sugerir uma busca espiritual, compartilhar leituras e vídeos, mas o parceiro não mostra o devido interesse.
Ela pode tentar abordar os mesmos assuntos de formas diferentes, pode ficar mais sensível, mais triste, mais reativa, mais irritada, reclamar mais, falar menos... Enfim, a esposa, nesta etapa, ainda está lutando pelo casamento.
Estágio 2: distanciamento emocional
A parceira pode parecer não se importar tanto com o que incomodava antes, deixando de fazer críticas ao marido ou de buscar conversas profundas. Isso pode dar a impressão de que ela está satisfeita, mas, na verdade, ela está se desvinculando emocionalmente dele por estar cansada de se esforçar sozinha pelo sucesso da relação.
Ela ainda está presente, mas emocionalmente já está bem distante. Não está mais lutando, está apenas sobrevivendo. Deixa de investir no relacionamento, passa a colocar energia em outras coisas e a se preparar psicologicamente para uma vida diferente.
Ela pode iniciar terapia individual, dividir suas dores com alguma pessoa de confiança ou buscar mais autonomia. É a etapa em que a intimidade (física e emocional) diminui e passa a existir um silêncio que não havia antes.
-Saiba mais lendo sobre a Teoria Polivagal.
Estágio 3: anúncio do fim do relacionamento
Ela se sente pronta para seguir a vida sem o parceiro e anuncia seu desejo de separação. Para ele, a notícia vem como um choque porque ela parecia “bem”. O marido tenta desesperadamente salvar o casamento, melhorando os comportamentos que incomodavam a esposa, aceitando terapia ou qualquer outro pedido dela. Mas pode ser tarde demais, pois ela está decidida a se separar e pode não ter mais desejo de tentar restaurar o relacionamento.
Como lidar com a Síndrome da esposa que desiste do relacionamento
A prevenção é uma das formas mais importantes de evitar que a situação chegue ao estágio 3. Mas vamos analisar como pode ser o processo de recuperação do casamento em cada um dos estágios da Síndrome da esposa que desiste do relacionamento.
Estágio 1: O relacionamento pode apresentar boas possibilidades de recuperação.
Se o marido ouve verdadeiramente a parceira e reage com mudanças de comportamento consistentes, o casal pode ter melhores condições de reconstruir a conexão e melhorar a qualidade da relação.
É muito importante que as melhorias não sejam temporárias e não permaneçam apenas na promessa.
Se o casal não conseguir se ajustar sozinho, a terapia de casal pode ajudar a esposa a expressar suas necessidades de forma clara e gentil e o marido a reconhecer os pontos que precisam ser trabalhados e colocá-los em prática.
Estágio 2: O relacionamento pode exigir um esforço maior para ser recuperado.
Se o parceiro negligenciou os pedidos da parceira no estágio 1, mas nota rapidamente o distanciamento dela no estágio 2, mudanças consistentes podem contribuir para que ela volte a se sentir motivada a investir na relação.
Presentes, viagens, declarações e promessas não substituem comportamentos e padrões de funcionamento saudáveis e afetuosos.
Nesta etapa, a terapia de casal é essencial, bem como a terapia individual para cada um dos dois parceiros. É importante interromper os padrões que contribuíram para o distanciamento e evitar que antigas formas de funcionamento sejam retomadas, pois o relacionamento está muito sensível.
Estágio 3: O relacionamento pode ser mais difícil de recuperar, mas isso não significa que uma reconciliação seja impossível.
Geralmente, a esposa já tomou a decisão de se separar e já se sente animada com a vida nova que terá. Nesse momento, ela pode já ter elaborado emocionalmente parte do processo de separação, enquanto o marido ainda está começando a perceber a gravidade da situação.
Ela pode olhar as tentativas de mudança desesperadas do marido com indiferença. Mas pode sentir que finalmente está tendo o marido que ela sempre quis e pode resolver dar mais uma chance.
Mesmo quando existe uma transformação sincera por parte do parceiro, a decisão de permanecer ou não no relacionamento pertence aos dois. Mudanças recentes não apagam automaticamente anos de frustrações, e a parceira pode precisar de tempo para avaliar se consegue voltar a confiar na relação.
Um acompanhamento psicológico individual e de casal é indicado, tanto quando existe uma possibilidade de reconciliação quanto quando o casal precisa elaborar a separação de maneira mais saudável.
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Psicóloga Ana Carolina Mainetti
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