Hikikomori: isolamento extremo voluntário
Atualizado: há 12 horas

O que é o Hikikomori?
O hikikomori é uma condição caracterizada pelo isolamento social extremo e voluntário, prolongado por mais de seis meses.
Hikikomori também é o termo usado para se referir à pessoa afetada por este quadro. O termo foi cunhado pelo psiquiatra japonês Tamaki Saitō em 1998.
Os hikikomori, cuja confiança em si mesmos e na sociedade foi muito afetada, tendem a se autoisolar em seus quartos, evitar qualquer tipo de contato presencial e, em muitos casos, substituir os relacionamentos sociais físicos por interações virtuais.
Atinge principalmente adolescentes e adultos jovens. Numa fase em que há mais influências como pressão por desempenho acadêmico, bullying, dificuldades nos relacionamentos sociais e amorosos, problemas familiares, questões de autoestima e desregulação emocional.
Embora os jovens sejam a maioria, é importante citar que os primeiros hikikomori estão envelhecendo e chegando na terceira idade.
Características do Hikikomori
Reclusão prolongada: A pessoa passa a maior parte do tempo em casa ou no próprio quarto, evitando qualquer contato presencial com amigos ou familiares.
Fuga e tecnologia: Há uma relação profunda com a internet, jogos digitais e redes sociais, utilizados como escape do estresse, do bullying ou de frustrações.
Insensibilidade e impacto futuro: Podem apresentar insensibilidade emocional, falta de motivação, perda de autoestima e desinteresse pelo futuro.
Origem e contexto global
Embora o hikikomori tenha surgido no Japão nas últimas duas décadas, fenômenos relacionados já haviam sido descritos anteriormente. Nos anos 70, Kasahara descreveu casos de “neurose de retraimento" e na década de 1980, Lock descreveu casos da “síndrome de recusa escolar”. Ambos apresentam semelhanças com o hikikomori atual.
No Japão, a intensa pressão social por sucesso acadêmico e profissional e pela cultura da vergonha de falhar afeta os jovens hikikomori. Além disso, a pandemia de COVID-19 contribuiu para o aumento de casos. O governo japonês tem programas específicos para ajudar os hikikomori, suas famílias e os profissionais que os tratam.
E lá, o envelhecimento da população deu origem ao "Problema 8050": uma questão social em que pais na casa dos 80 anos suportam a carga financeira e emocional para sustentar seus filhos reclusos, que já estão na casa dos 50 anos.
O hikikomori já não é um fenômeno restrito ao Japão e se tornou uma condição internacional.
Principais causas do Hikikomori
Habilidades interpessoais básicas insuficientes;
Estresse decorrente de exigências acadêmicas ou profissionais;
Experiências passadas de fracasso ou decepção;
Evolução da comunicação presencial para a virtual;
Pressão das expectativas familiares ou sociais (como a cobrança para vencer na carreira);
Rejeição social, bullying, assédio moral ou outras vivências traumáticas;
Histórico de experiências de violência, que geram desespero em relação à humanidade, destroem a esperança e abalam a capacidade de acreditar em alguém;
Conflitos familiares ou falta de apoio emocional;
Condições psicológicas e transtornos mentais não diagnosticados ou não tratados.
Hikikomori: sinais de alerta
É importante estar atento a comportamentos que indicam o início ou o aprofundamento do hikikomori:
Permanecer sozinho no quarto por longos períodos, raramente saindo;
Evitar a escola, a faculdade, o trabalho ou atividades sociais;
Recusar-se a conversar, mesmo com membros da família;
Comportamentos repetitivos, como jogar videogame em excesso, ficar acordado até tarde e dormir durante o dia;
Alterações de comportamento, que variam entre rompantes agressivos alternados com comportamentos infantis, ou tendências obsessivas, paranoicas e deprimidas.
Aspectos psicológicos do Hikikomori
A dificuldade do hikikomori pode ser originada por traumas do passado ou pela sensibilidade ao ambiente que não transmite segurança, sendo o isolamento extremo uma tentativa adaptativa de se proteger.
Estar trancado no quarto, para ele, não significa estar seguro porque o medo, a ansiedade e a sensação de ser um incômodo ou de estar sendo desprezado continuam ecoando em sua mente.
À medida que o tempo passa, quanto mais tempo o hikikomori permanece longe da sociedade, mais ele sente o fracasso social, abalando a autoestima e tornando a ideia de sair de casa aterrorizante.
Existe uma diferença importante entre solidão e isolamento:
Solidão: Estar sozinho, mas ainda manter conexões com outras pessoas, conservando uma sensação de segurança e pertencimento.
Isolamento: Estar cortado do convívio humano, que é o caso do hikikomori.
Hikikomori: diagnóstico e comorbidades
O diagnóstico é desafiador devido à ausência de critérios consensuais e à alta prevalência de comorbidades psiquiátricas. Clinicamente, a condição é classificada em duas categorias:
Hikikomori primário: Quando não há doença mental diagnosticável presente.
Hikikomori secundário: Quando é acompanhado ou decorrente de um transtorno mental.
As condições e transtornos psiquiátricos frequentemente associados incluem:
Tratamento para Hikikomori
Um dos maiores obstáculos para o tratamento é a resistência dos próprios pacientes em buscar cuidados de saúde, já que frequentemente não reconhecem o isolamento social extremo como um problema ou recusam o contato externo.
O tratamento para hikikomori exige uma abordagem multiprofissional e integrada. O cuidado deve envolver o acompanhamento conjunto de um médico clínico, psiquiatra e de um psicólogo.
Dependendo da idade, da condição geral de saúde do hikikomori e do tempo de isolamento, outros problemas de saúde precisam ser tratados. Pode haver perda de condicionamento físico ou de mobilidade devido ao tempo prolongado de inatividade, falta de vitaminas e desregulação metabólica sem exposição à luz solar, pela alimentação irregular e pela privação de sono.
Portanto, acompanhamentos de fisioterapeuta, nutricionista, terapeuta ocupacional, acompanhante terapêutico, educador físico, terapeuta familiar, médicos de outras especialidades e assistente social podem ser necessários, visando o tratamento de saúde, a reestruturação da rotina diária e a reinserção social.

Como eu posso ajudar
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Psicóloga Ana Carolina Mainetti
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